HISTÓRIA DO TERRIER BRASILEIRO
O Terrier Brasileiro, também conhecido como FP, é uma das duas raças nativas oficialmente reconhecidas no Brasil. É um terrier de trabalho, alarme e companhia, estando presente na vida brasileira desde o início do século XIX.
Embora o padrão rácico dos “fox terriers” espalhados pelo mundo tenha uma mesma origem, uma mesma raiz, podemos dizer que em cada País que se fixou apresenta uma peculiaridade diversa e inerente àquele País. Os tipos terriers que mais se assemelham entre si são os exemplares: Manchester Terrier, Fox Terrier Pelo Liso, Terrier Japonês, Parson Jack Russell, Terrier Chileno, Rat Terrier, Terrier Italiano, Terrier Dinamarquês, Terrier Holandês e o nosso brasileiríssimo Terrier Brasileiro, ou Fox Paulistinha.
É difícil “tentar adivinhar”, apenas vendo estes padrões atuais, como eram estes cães há pelo menos 20 gerações atrás. Mas temos uma pista. Devido à complexidade da história cultural japonesa, chegamos aos holandeses. E trazemos a Companhia das Índias Orientais até nossa história. Durante quase 3 séculos (do XVI ao XIX), o Japão fechou-se, num bizarro ostracismo, a qualquer relacionamento comercial, exceção única aos holandeses, que foram prudentes nas relações comerciais com o Oriente; assim não foram expulsos do Japão. Mesmo sofrendo restrições, ficaram confinados numa pequena ilha, Deshima e acabaram interagindo com os japoneses, retratando o que viam. Aparecem em pinturas de porcelanas daquela região (Imari e Arita em especial), pequenos cães de característica “terrier”. Como o Japão só permitiu a “entrada” do holandês, ficou mais restrita a pesquisa, e, seguramente, afirmo que a origem do Terrier Japonês vem desta época. Em 1988, em visita ao criador de Terrier Japonês, Jun Takahara, em Hachioji-shi, contei-lhe esta minha pesquisa que aliás foi publicada no primeiro livro sobre a raça “O Fox Paulistinha” de minha autoria, editado e lançado em 1991. Sua teoria era diversa da minha, mas, para meu deleite, pude ver no livro “O Terrier Japonês” de sua autoria, o resultado de meu estudo publicado como a história oficial do Terrier Japonês.
Esse tipo de Terrier sempre acompanhou o homem em suas andanças. Observando o desenvolvimento do Brasil, desde seu descobrimento, e imaginando que aonde tem população, na época, havia cavalo, e, aonde havia cavalo, havia canino, e, aonde havia canino, sempre havia um Terrier desse fenótipo. Encontramos os holandeses em Pernambuco (Maurício de Nassau em 1637). Tomé de Souza os introduziu na Bahia (final do século XVI), estendendo-se pelo Recôncavo e todo o baixo São Francisco. O movimento dos Bandeirantes (século XVII), quase sempre expedições organizadas pelos paulistas, que em sua maioria saem de São Vicente (SP) e São Paulo (SP) para o Sul, Centro-Oeste e região mineira. a descobrir o “sertão desconhecido”. Sorocaba era importante centro de comércio, e ficava na rota dos então “Campos Gerais”, sendo um dos principais pontos de partida dos Bandeirantes que também levavam junto às tropas esse cãozinho tipo terrier.
Historiadores especulam que a força propulsora de sua introdução, e eventual desenvolvimento como uma raça, acontece a partir de 1808, com a transferência da Corte de Portugal para o Brasil. Para entender a história, trajetória e conseqüente origem do TB, faz-se necessário voltar à história do próprio Brasil quando o Rei de Portugal, D. João VI, transferiu-se para a colônia Brasil.
A viagem de Dom João VI nada teve de precipitada, foi bem planejada. Certamente foi feita sob a pressão do Exército Francês que já chegava às portas de Lisboa. Partiram então, sob a proteção de quatro navios de guerra ingleses, 15 embarcações, 15.000 pessoas, para uma atribulada viagem de 50 dias.
Assim que chegou a Salvador e antes mesmo de seguir para o Rio de Janeiro, seu destino final, Dom João assinou uma carta régia abrindo os portos brasileiros às nações amigas, acabando com séculos de exclusivismo comercial português, beneficiando o Brasil que se integrava ao mundo. Para o Brasil colônia a mudança era vantajosa, pois com o rei vinham soluções, mais que problemas.
Numa colônia isolada com o era o Brasil, esse contato foi um enorme avanço, fundou-se a primeira faculdade, houve maior intercâmbio com as aristocracias européias, a etiqueta, o cerimonial, ou mesmo livros, os cortesãos falavam a mesma língua, tinham as mesmas maneiras e estilo de vida. Trazendo consigo esses bens de necessidade, costumes e hábitos, trouxe também animais domésticos, importantíssimo na época o cavalo, e quer direta ou indiretamente o cão de tipo terrier.
De uma hora para outra o Brasil se viu inundado por produtos mais baratos e em grande diversidade. E as exportações, antes obrigadas a passar por Portugal, podiam ser diretamente enviadas aos países compradores, crescendo a presença de comerciantes estrangeiros no Brasil, mudando o sistema de comércio.
Comerciantes ingleses se lançaram com avidez ao novo mercado. Devido ao bloqueio promovido por Napoleão suas mercadorias acumulavam-se nos armazéns e o Brasil surgiu como o escoadouro ideal desses estoques. Além do intercâmbio de produtos tropicais e produtos das Índias Orientais, porcelana da China e Japão.
Para escoamento dessa demanda só havia um meio de transporte: as caravelas. E podemos considerar aqui o marco inicial de nossa raça canina terrier, que aconteceu quase sem querer. Esses terriers eram transportados nas caravelas pela característica de caça a pequenas presas, neste caso específico, ratos e ratazanas que infestavam os porões. Excelentes caçadores, já desempenhavam, então, sua função de cão terrier, designação do grupo III, conforme FCI – Federação Cinológica Internacional.
Durante a permanência das caravelas em nossos portos, evidentemente esses terriers caçadores saiam das naves e por aqui ficavam. Prestigiados pela sua aptidão inata, eram requisitados nos armazéns. Os comerciantes portugueses, que bem conheciam o interior da colônia Brasil, juntamente com os ingleses, tinham de criar uma estrutura de distribuição para recuperar a clientela. Precisavam de gente capaz de espalhar pelo País os produtos importados e trazer ao porto a produção local. Os principais portos do Brasil eram o do Rio de Janeiro e o de Santos, no Estado de São Paulo. Em 1867, A São Paulo Railway ligou a região da baixada santista (Santos) ao Planalto (São Paulo) e melhorando o sistema de transportes, estimulou o comércio e inicia-se o desenvolvimento da cidade de São Paulo, (que conta no ano 2000 com mais de 10.000.000 de habitantes), especialmente a cultura do café que fez de São Paulo um polo de desenvolvimento e riqueza. Para onde iam levavam esse terrier caçador.
Na época, os senhores de engenho, conhecendo estas qualidades levavam esses cães às fazendas, com o mesmo propósito de tentar proteger os paióis de milho, os depósitos de cana de açúcar, do ataque das ratazanas. O que até os dias de hoje se faz.
O que não sabiam, mas descobriram logo era que esse terrier em especial tinha outras aptidões também, como caçador de presas de pena e de pêlo, além de tomarem conta de rebanho, ótimos para pastoreio. Evidente que nas caravelas não vinha sempre o mesmo tipo de terrier.
“Terrier” é um nome bastante forte, terrier era o cão fuçador, caçador, palavra que vem do latim TERRUM, termo usado pela primeira vez em 1359, no “Poème sur la Chasse”. Em 1570, Johannes Caius, a quem se deve a primeira classificação das raças caninas, escreveu seu CANIBUS ANGLICAS e nos ilustra com uma inestimável descrição do trabalho que já então realizavam esses terriers:
“Existem também cães para a caça à raposa ou ao texugo, chamados “terriers” porque se introduzem no terreno e assustam, irritam e mordem o animal até o reduzirem em pedaços com os dentes, ou por força o tiram das tocas e cavernas; ou ainda infundem tal medo que o induzem a abandonar repentinamente o refúgio para procurar outro.”
Em 1837 foi publicado o livro “British quadrupeds”, aonde se diz que desde há 70 anos (por volta de 1760) havia apenas dois tipos de terriers nas ilhas britânicas: “uma de pelo curto, liso e de aspecto elegante, de cor negro brilhante, com o ventre, a garganta e uma marca sobre cada olho de cor marrom avermelhado. De cabeça portada alta, olhos vivos e brilhantes, orelhas eretas, às vezes dobradas, o corpo compacto, as patas e pés delgados porém fortes; o rabo ereto, rígido, ligeiramente curvado. A outra variedade é chamada de Wire-Haired Terrier” (cujas características não dizem respeito ao nosso TB).
Dessas duas únicas e primeiras variedades reconhecidas como terriers pelo seu tipo de trabalho, notadamente caçador, através de cruzamentos e combinações diversos, é que encontramos hoje a família racial mais ampla da nomenclatura canina: os terriers.
Dentre os mais plausíveis ancestrais de nosso brasileirinho não podemos deixar de mencionar:
- o Manchester Terrier (cruzamento do Black and Tan Terrier e o Whippet), também ele com semi pés de lebre, fortes. Criado no final do século XVIII como um cão que tivesse a combinação de virtudes necessárias para matar ratos. Os ratos eram colocados em um cercado de madeira e o cão entrava para seu “trabalho”.
- o Jack Russell Terrier, desenvolvido pelo reverendo Jack Russell, reputado criador de Fox Terriers, que por volta de 1815 e 1819 adquiriu um exemplar terrier fêmea, Trump, aproximadamente de 30/35 cms. de altura, de cor predominante branca, de pelo liso, porém não colado ao corpo. Baseado no condado de Devon, Inglaterra, desenvolveu esta raça miscigenando terriers brancos e o antigo tipo do Fox Terrier de Pelo Liso. Seu objetivo era um cão rústico, caçador de raposas, de tamanho e proporção ideais para caber aonde uma raposa caberia.
- o Fox Terrier de Pelo Liso (FTPL), descendente do Old English Terrier, este, conhecido desde 1486 e mencionado em 1576 no livro “English Dogges”, escrito por Caius. Também aqui entra em sua formação o Black and Tan Terrier (de pelo liso), o Beagle, o Greyhound. Em 1790 aparece um quadro do cão “Pitch”, parecido com o tipo do qual se derivou a raça. Sempre presente a função de cão caçador de pequenas presas. De orelhas pequenas em forma de “V”, de mandíbula forte, o atual FTPL é diferente do FTPL do início do século XIX, o que aqui chegou com as caravelas. Até ter seu padrão oficial, escrito no início dos 1800, estes terriers de cor predominante branca eram TODOS conhecidos como Fox Terrier. Por algum motivo desconhecido, o TB manteve-se mais puro que seu próprio ancestral.
Eventualmente, fazendeiros e proprietários de terra no Brasil de então criaram o terrier europeu com o terrier nativo (o das primeiras expedições e o do início do século XIX) para produzir um robusto, forte e saudável terrier aclimatizado ao Brasil. Especula-se também que a “continuação” de sua introdução e eventual desenvolvimento como uma raça pode ser creditada aos filhos e filhas de fazendeiros que trouxeram pequenos terriers de volta de seus estudos na Europa durante o final século XIX e começo do século XX.
Na primeira metade do século XX, o Fox Paulistinha, como o próprio nome já diz, instalou-se e desenvolveu-se no interior do Estado de São Paulo. “Paulista” é designação de quem é natural do Estado de São Paulo. “Paulistinha” é diminutivo de paulista. Além do fato de ser basicamente tricolor de branco, preto e vermelho, as cores da bandeira do Estado de São Paulo.
Foi muito útil nas fazendas por sua habilidade em caçar, tanto animais de pena, como de pêlo.
O Brasil é um País de muitos emigrantes. Destacam-se em São Paulo, Estado do sudeste brasileiro e berço desta raça, os italianos, que desde o começo do 1900 tiveram uma participação sócio econômica bastante influente. De imigrantes pobres tornaram-se progressivos participantes de nossa sociedade, proprietários de fazendas no interior do Estado e de armazéns e entrepostos nas zonas estratégicas desta Capital. Neste período, o FP ou Fox Terrier, como então era conhecido tinha um papel fundamental nestes depósitos. Estes terrierzinhos valiam uma fortuna, pois eram disputados pelos donos desses depósitos pela facilidade com que matavam os ratos predadores, e os italianos tratavam nossos paulistinhas como absolutos “senhores” do terreiro. Foi assim que esta raça difundiu-se nos centros urbanos. Ter um desses animaizinhos no entreposto era um passo a levá-lo para casa. E uma vez dentro de casa, descobria-se as demais qualidades que a raça possui.
Este TB foi muito bem acolhido e teve seu maior apoio e conseqüente crescimento pela população do Estado de São Paulo, e tornou-se regional e nacionalmente conhecido como Fox Paulistinha. Para efeito de reconhecimento internacional o nome da raça passou a ser TB (desde 1992). É conhecida pelos dois nomes.
Após a II Grande Guerra, este cão foi trazido à Capital, onde se adaptou muito bem mantendo sua rusticidade e espírito brincalhão. A capital do Estado de São Paulo, São Paulo, cresceu, urbanizou-se. Os problemas das grandes cidades começam a aparecer. E também agora, nas grandes cidades, mostra-se útil como um cão de alarme, e, em bando, como um bom guarda.
Apesar da sofisticação do sistema de segurança deste final de século XX, o TB continua dentro dos lares dos centros urbanos, especialmente para acordar o cão de porte grande e servir de cão alarme, entre outros predicados mais.
Por suas habilidades e características, tornou-se logo um cão conhecido nacionalmente. Primeiro foi reconhecido em 1964, e manteve seu status oficial até 1973, quando o Brasil Kennel Clube cancelou o registro da raça por causa do número insuficiente de cães. Em 1995, foi reconhecido oficialmente pela FCI, tendo seu padrão arquivado sob No. 341.
Marina Vicari Lerario
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